sábado, 9 de abril de 2011

Ela anda pela rua com a cabeça baixa, braços cruzados no peito, está frio.
Ele começa a andar do lado dela, passos iguais, respirações sincronizadas.
-Oi...
Ela o olha atravessado. Estranho, não vou dar cabimento e ele logo vai embora.
Mas ele não desiste. Continua andando junto com ela, olhando-a de quando em quando.
Ela aperta o passo, quer livrar-se logo dele.
Ele aperta o passo.
Ela dá um passo para frente, rápido, certeiro, e vira-se para encará-lo.
-O que você está fazendo? - Seus olhos: incompreensão.
-Estou andando.
-Você está me irritando.
-Desculpe, eu não quis...
-Vê se some de uma vez.
Ele não quer sumir. Gosta de andar ao lado dela. A presença dela parece anestesiar o frio. A presença dela parece fazer o sol mais claro. A presença dela o faz sentir-se completo, realizado, o faz sentir como se nada no mundo pudesse dar errado enquanto estivessem juntos.
Não a conhece, mas a sente, sempre sentiu.
Também sente como se ela o dominasse. Ele tem a certeza de que se ela o pedisse para buscar o céu e as estrelas ele os buscaria. Ele tem a certeza de que se ela precisasse de um coração ele daria o seu. Ele tem a certeza de que nunca mais vai ver algo tão belo e imponente como aquela garota. Por isso decide fazer o que ela lhe pede, decide sumir.
Ela nunca saberá disso. Nunca saberá do quanto foi amada e desejada por todos aqueles anos. Nunca saberá que ele a olhava todos os dias enquanto ela atravessava o pátio, os cabelos pretos ricocheteando nas costas, os olhos verdes com um brilho de esperança, as mãos sempre fechadas em punhos, típico de pessoas ansiosas, perturbadas.
Conhecia cada traço seu, cada mania sua. Enquanto ela nem o seu nome sabia.
Ele, por sua vez, passou a manhã treinando uma frase para aproximar-se dela, chegar nela e convidá-la para sair. Tentou parecer o mais tranquilo possível e só fez papel de trouxa. Trouxa, trouxa, trouxa.
Quem disse que a vida é justa, era um puta de um mentiroso.

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